quarta-feira, 4 de maio de 2011

BUDISMO E PÁSCOA


A proximidade da Páscoa remeteu as minhas antigas vivências de infância. Essa data era esperada com ansiedade, assim como o Natal – havia o ninho e os brinquedos.

Na época, os pais faziam os ninhos com antecedência de acordo com uma antiga tradição alemã. Usavam-se caixas de sapato revestidas de papéis de seda coloridos, cortados em tiras e repicados, de forma que o revestimento deixava o ninho colorido e “repolhudo”.

Há anos atrás havia pouco chocolate nos ninhos, pois era muito caro. As mães se engajavam na tarefa de fazer muitos doces de batata-doce, de coco e havia muitos ovos de galinha com amendoim doce dentro. Um ninho com um grande ovo de ganso era muito mimo. Como minha avó criava gansos para vender as penas para a confecção de travesseiros e cobertas, geralmente vinha um ovo de ganso no meu ninho. Os doces eram enrolados com papéis de celofane colorido. Havia também os ovos de açúcar e os com licor (sem álcool) por dentro – eram tão lindos que davam pena de comer.

Todas essas vivências fazem parte da minha história e são lembranças que ocupam um lugar especial em minha memória.

Tudo isto me inspirou a criar a oficina do ninho, que é uma festividade dentro do calendário cristão. Essa oficina foi postada nas redes sociais e causou estranhamento em uma pessoa. Páscoa? Como assim? Páscoa, ninho? Vindo de uma monja zen-budista?

Isto provocou algumas reflexões sobre a minha vivência como monja zen-budista e as motivações para a iniciativa de me aproximar da comunidade através da celebração da Páscoa.

Pratiquei o budismo durante 10 anos até me ordenar monja, o que eu não imaginava que um dia pudesse acontecer, pois era impensável. Este processo foi acontecendo espontaneamente. Foi um encontro – eu estava pronta. No entanto, ser uma monja budista não significa que eu tenha algo contra qualquer outra tradição religiosa.

Criada neste pais, de acordo com os preceitos da igreja católica, religião oficial do Brasil, é compreensível que eu seja atravessada por essa cultura. Negar toda uma tradição é tão difícil quanto incorporar outra cultura sem ter vivido nela.

Outra motivação talvez seja o fato de, já antes de minha ordenação, eu participar de um grupo de diálogo inter-religioso em uma universidade jesuíta, considerada uma das melhores do país. Estão presentes neste grupo líderes do Espiritismo, do Santo Daime, de religiões Afro-descendentes, padres da Igreja Católica, da Anglicana, uma pastora da Igreja Luterana, e também da Brahma Kumaris. Encontramo-nos regularmente, sendo o grupo um espaço de aprendizado através da diversidade, da tolerância e da aceitação incondicional do diferente, de ética e de amizade.

Mais ainda, resido numa cidade relativamente pequena (200.000 habitantes), considerada o berço da colonização alemã no Brasil, e é nesse panorama que esta monja zen-budista interage, age, reage, gera ações que convida reações.

Fala-se de um budismo brasileiro. Há poucos dias foi celebrado o Festival das Flores – Hanamatsuri. Comemora-se nessa ocasião o nascimento do menino Sidarta, que veio a se tornar o Buda. Aos poucos essa festividade vai passar a fazer parte da cultura brasileira e poderá ser desfrutada por pessoas de diferentes tradições religiosas.

Aliás, esta é uma característica do povo brasileiro – circular por diferentes religiões.

Cabe então às diferentes tradições religiosas manter uma coerência, no sentido de acolher as diferentes necessidades e oferecer o que cada uma tem de melhor: preservar a vida em todas as suas manifestações e auxiliar as pessoas a encontrarem sentido para suas vidas. Páscoa fala de ressurreição, de renascimento. Assim como Jesus, Buda ainda vive através de seus ensinamentos, ao dizer a seus discípulos: “façam de meus ensinamentos o seu mestre e eu continuarei vivo para sempre”.

Gasshô!

4 comentários:

  1. Muito rico o seu texto! Eu nasci em lar cristão e conheci o budismo depois de adulta, me identifiquei bastante com a prática e os ensinamentos, sendo assim, eu tenho Jesus e Buda como meus 2 mestres, tenho esse diálogo dentro da minha mente por conta da maneira que fui criada e conheci cada qual. Resolvi que não queria mudar essa visão por achar benéfica para a evolução do meu ser. Esse texto me acolheu em minhas crenças.

    Gratidão monja, Gasshô! _/\_

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  2. Texto lindo e cheio de verdades,Monja.Eu me identifico muito com a filosofia budista,porém, esbarro muito no método acirrado como alguns orientadores as aplica.Percebo também que a filosofia do desapego confronta com os requisitos para participarmos de um retiro(por exemplo), cobrá-se muito caro e impede que classes menos afortunadas possam participar, pelo menos na região de Rio Grande do Sul, onde moro,acontece. Por isso, seu texto é abrangente e iluminado. Gratidão!_/\_

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  3. Boa tarde!!
    Muito Inspirador esse texto, essas comparações entre coisas que fazem parte do nosso dia dia é muito importante que um simples ovo de Páscoa que demos mas valor que as coisas que DEUS nós proporciona na vida para sermos Felizes entre Familiares e Amigos na nossa infância!!! Muitíssimo Obrigada Gratidão à Senhora Monja KoKai!!Abraços

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    1. Eu sou Rita de Cassia,eu que escreve agora essa msg não sei porque meu nome nao apareceu,como nunca fiz isso possa ser que não sobe enviar!!!

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